segunda-feira, 10 de setembro de 2012

O mundo adaptado de Philip Dick

Coletânea reúne todos os contos do autor de ficção científica que receberam adaptações cinematográficas


Felipe Moraes

Publicação: 08/09/2012 03:00

Coletânea reúne
todos os contos
do autor de ficção
científica que
receberam
adaptações
cinematográficas (WARNER BROS/DIVULGACÃO)

Coletânea reúne todos os contos do autor de ficção científica que receberam adaptações cinematográficas
“Uma ilusão, por mais convincente que fosse, não passava de uma ilusão”, lamenta o narrador de Lembramos para você a preço de atacado, conto em que o norte-americano Philip K. Dick, um dos escritores de ficção científica mais experimentais do século 20, conta as angústias de um homem que já não sabe mais o que é realidade e o que é invenção, fabulação, sonho ou pesadelo. Nas salas de cinema, a história está em cartaz há alguns dias com o título O vingador futuro, um remake do mesmo filme que Arnold Schwarzenegger protagonizou em 1990. Agora, todos os contos de Dick que ganharam versões cinematográficas estão reunidos num só volume, em Realidades adaptadas (Aleph).

Em outubro, a Aleph lança Fluam, minhas lágrimas, disse o policial (1974), sobre um artista que desperta num mundo absolutamente desconhecido, do qual nunca tinha ouvido falar. Ano que vem, o selo republica O homem do castelo alto (1962), Os três estigmas de Palmer Eldritch (1964), Ubik (1966) e VALIS (1978) em edições com capas de adesivos removíveis, novidade apresentada em Realidades adaptadas.

O cinema que, desde o ano da morte do ficcionista, em 1982, adapta romances e narrativas curtas de Dick em filmes nem sempre decentes — exceções sejam feitas a Blade runner (1982), Minority report (2002) e O homem duplo (2006)—, suga do espólio do norte-americano nomes, datas, cenários e algumas sugestões difusas sobre a relação do homem com sociedades futuristas hostis, friamente mediadas pela tecnologia.

MetafísicaAutor de 36 romances e cinco seleções de contos, Dick não teve o reconhecimento que merecia em vida. Por meio da ficção científica, fazia observações filosóficas, metafísicas e existenciais sobre a humanidade. Era panteísta: via o universo como mera parte de Deus. Os mundos que criou colocam mais problemas que soluções, mais caos que ordem. Sem sucesso na literatura tradicional — por isso, Vozes da rua (Rocco) ficou inédito por mais de meio século —, teve uma carreira de dificuldades financeiras e um fim de vida marcado por estranhas experiências religiosas. Em 1974, quando se recuperava da extração de um dente siso, recebeu visita de uma moça da farmácia.

Abriu a porta e se impressionou com o peixinho, símbolo do cristianismo, que ela levava numa corrente dourada pendurada no pescoço. Dick, então, foi iluminado por um raio rosa — o episódio recebeu até uma versão em quadrinhos de Robert Crumb, que pode ser facilmente achada na internet. Alucinado, paranoico, e com surtos esquizofrênicos, desenvolveu uma obsessão pela história do cristianismo, pela trajetória de Jesus Cristo e pelo império romano. Num certo momento, acreditou que o profeta Elias, do Velho Testamento, estava encarnado em seu corpo.

Várias dessas experiências estão relatadas na trilogia inacabada VALIS — uma de suas alcunhas de Deus —, e no texto não ficcional The exegesis of Philip K. Dick (A exegese de Philip K. Dick), editado ano passado, nos Estados Unidos.

Contos no cinema
1990 

O vingador do futuro
A primeira versão de Lembramos para você a preço de atacado
(1966), superior a esta em cartaz nos cinemas, traduz o escrito de Dick para a tela grande com as bizarrices visuais do diretor Paul Verhoeven. Arnold Schwarzenegger interpreta um sonhador obcecado por Marte, que descobre ser um agente secreto ao tentar comprar um pacote de memórias numa empresa especializada no assunto.

1995
Assassinos cibernéticos
Peter Weller, o RoboCop, protagoniza um suspense espacial ambientado no ano de 2078, num planeta de mineração distante da Terra. Baseado no conto Segunda variedade (1953), o filme do canadense Christian Duguay narra o descontrole de um sistema bélico de inteligência artificial, que ameaça destruir qualquer indício de vida que encontrar pela frente.

2001
Impostor
Inspirado em conto homônimo de 1953, o longa-metragem de Gary Fleder emoldura a busca por identidade de um sujeito suspeito de mentir sobre quem ele verdadeiramente é. No futuro, o planeta está em guerra com extraterrestres violentos, que não hesitam em utilizar a tecnologia de androides para reduzir planetas inimigos a pó.

2002
Minority report -  nova lei
Steven Spielberg dirige história (1956) situada em 2054, em que Washington vive em paz por conta do esquadrão Pré-crime, uma divisão da polícia que prevê delitos antes que eles aconteçam. As coisas saem do esperado quando o chefe da força policial vislumbra um assassinato que ele mesmo vai cometer, nas próximas 36 horas. Uma das melhores produções baseadas em Dick, ao lado de Blade runner (1982).

2003
O pagamentoNum de seus filmes mais fracos realizados nos Estados Unidos, o chinês John Woo adapta história publicada em 1953, sobre um engenheiro (Ben Affleck) que tem a memória apagada após realizar trabalhos para diversas corporações. Ao fim de um projeto ambicioso — 2 anos de memória em troca de uma gorda recompensa —, ele se torna alvo de uma conspiração governamental.

2007
O videnteNicolas Cage estrela, talvez, a pior adaptação de um trabalho de Dick, chefiada por Lee Tamahori. Cage é um mágico com uma habilidade incomum: consegue visualizar acontecimentos de um futuro imediato, que só ocorrerão nos próximos cinco minutos. Somente o ilusionista — no original, O homem dourado (1954) — pode frustrar plano terrorista de explodir uma bomba nuclear em Los Angeles.

2011
Os agentes do destino
Um político em ascensão (Matt Damon) e uma bailarina sonhadora (Emily Blunt) protagonizam romance impossível num futuro controlado pela chamada Equipe de ajuste, que dá nome ao conto lançado em 1954. Alguns agentes engravatados criam um mundo satisfatório ao endireitar as escolhas que as pessoas fazem, construindo de antemão um futuro sem risco de surpresas
(boas ou ruins).


Publicado no Diario de Pernambuco em 8/09/12 p. E6.

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