sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Solidão do intelectual

Pensador Zygmunt Bauman analisa em seu novo livro que somos vítimas da perversidade do mercado financeiro, que cria multidões de gastadores e/ou devedores


FELLIPE TORRES
fellipetorres.pe@dabr.com.br

Publicação: 03/08/2012 03:00 

Sociólogo Zygmunt
Bauman reflete sobre
temas atuais emIsto
não é umdiário (WHOAMI-WHOAREYOU.BLOGSPOT.COM.BR/REP. DA INTERNET)
Sociólogo Zygmunt Bauman reflete sobre temas atuais em Isto não é um diário


Característica marcante da Era da Informação, a velocidade dos acontecimentos e das consequentes mudanças de conjuntura em nível global revelou-se pedra no sapato para um dos mais profícuos e renomados pensadores da contemporaneidade. A saída para o sociólogo e filósofo Zygmunt Bauman, defensor ferrenho da chamada “modernidade líquida” e de seus múltiplos desdobramentos, foi refletir e dar vazão à produção dos textos em tempo real. Talvez pela inviabilidade comercial da empreitada online ou pela própria falta de interesse do autor de 86 anos em aderir à web, originou-se Isto não é um diário (Zahar, 256 páginas, R$ 39,90), que chega nesta semana às livrarias brasileiras.

Em linhas gerais, o livro coleciona breves avaliações a respeito de temas recorrentes na obra do escritor, feitas em um período de seis meses (cada texto é referente a uma data). Como ele próprio justifica nas primeiras páginas, o formato surge “não pela falta de conhecimento disponível para consumo, mas em razão de seu excesso, que desafia todas as tentativas de absorvê-lo e digeri-lo”. Quem já teve contato com outros títulos, a exemplo de Amor líquido e Mal-estar da pós-modernidade, provavelmente se surpreenda com o tom pessoal de Bauman em algumas passagens.

Ele se define como um “claustrofóbico incurável”, para em seguida reconhecer a perda do vigor com a chegada da idade, comentar a solidão enfrentada após a morte da mulher e admitir que seu “parceiro para diálogo” é o Microsoft Word.

Antes de prosseguir com aquela que seria a mais depressiva autobiografia, Zygmunt Bauman retoma o posto de tradutor do mundo contemporâneo para nos falar sobre assuntos como o processo de individualização da humanidade. “Na modernidade líquida prevalece o deus do tipo ‘faça você mesmo’. Não um deus recebido, mas inventado individualmente”. Para além do âmbito religioso, o sociólogo afirma, ainda, que nos tornamos os nossos próprios poderes Legislativos, Executivos e Judiciários.

Como contraponto a essa individualização, nos é oferecida a visão da internet como “presságio da visibilidade dos invisíveis, da audibilidade para os mudos, da ação para os incapazes de agir”. Ele aproveita para ressaltar fenômenos inerentes à vida dois-ponto-zero: “as redes de relacionamento prometiam romper os limites da sociabilidade, mas não o fizeram e não o farão”, diz, após relembrar que por definição biológica nossas relações significativas estão limitadas a 150. Se além desse número as suas contas em mídias sociais somarem outros milhares de contatos, saiba: “são meros voyeurs”.

Na visão do autor vivemos em uma sociedade confessional, onde tudo é feito para aumentar o próprio “valor de mercado” por meio do marketing pessoal na web. “As pessoas são ao mesmo tempo promotores de mercadoria e as mercadorias que promovem”.
Se os jovens são enxergados como novos mercados prestes a serem explorados, ao mesmo tempo são surpreendidos com a falta de empregos e a desvalorização dos diplomas universitários.

Diante do cenário, Zygmunt Bauman mostra grande preocupação com a falta de preparo da juventude para enfrentar um mercado em transição, que talvez já esteja na era pós-industrial. Com cautela, ele lança mão das pesquisas: o 1% mais rico dos norte-americanos não é mais formado por donos de indústrias, e sim por financistas, celebridades, designers. “Hoje, a fonte básica de riqueza e poder são conhecimento, inventividade, imaginação, capacidade de pensar e coragem para fazer de modo diferente”, sugere.

O resultado disso tudo é um planeta onde as desigualdades são cada vez mais gritantes. Neste ponto, o sociólogo surpreende ao mencionar como exemplo a ser seguido o programa Bolsa Família. “O governo brasileiro conseguiu tirar do abismo da pobreza, da insegurança e da falta de perspectivas cerca de 13 milhões de famílias, o equivalente a 50 milhões de adultos e crianças”.

Como extremo oposto ao exemplo brasileiro, Bauman relata a cruzada do governo francês nas “bambieues” (nome genérico para bairros violentos e ruas perigosas) contra o povo roma (chamados de ciganos). Em determinado momento, compara as ações do presidente Nicolas Sarkozy ao do personagem Dom Quixote na “luta contra moinhos de vento”.

Isto não é um diário traz um Zygmunt Bauman invejavelmente maduro, sem tempo a perder e disposto a compartilhar com a humanidade o seu modo de pensar. Revela sua “descoberta tardia”, - que parece ter evoluído para uma obsessão - a obra do escritor português José Saramago (falecido três meses antes de o livro começar a ser escrito).

É o registro impresso do autor polonês testemunhando em vida a concretização de seu maior objetivo enquanto sociólogo: “facilitar a compreensão e o diálogo constante entre seres humanos”.
Publicado no Diario de Pernambuco em 03/08/12, p. E6.

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