terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Universo de Asterios Polyp

Por André Dib

Drama de um arquiteto em crise é a espinha dorsal de uma excepcional reflexão sobre a vida


Elementos de arte moderna, filosofia e psicanálise estão incorporados na própria estrutura narrativa. Imagem: DAVID MAZZUCCHELLI / QUADRINHOS

Dez entre dez listas trazem Asterios Polyp (344 páginas, R$ 63) entre as melhores publicações em quadrinhos lançadas no Brasil em 2011. É sem dúvida o mais elaborado trabalho de David Mazzucchelli, cujo talento já era evidente nos anos 1980, quando criou com Frank Miller o que permanece até hoje como duas grandes referências dos quadrinhos de super-heroi: Demolidor: a queda de Murdock e Batman: ano um. Nos anos 1990, Mazzucchelli deu um novo salto artístico ao adaptar o livro Cidade de vidro, de Paul Auster.

Mais de uma década depois surge Asterios Polyp, sua primeira graphic novel 100% autoral. Originalmente publicado em 2009, o drama de um arquiteto em crise é a espinha dorsal de uma excepcional reflexão sobre a vida, em que elementos de arte moderna, filosofia e psicanálise estão incorporados na própria estrutura narrativa. O resultado é impressionante.

Para se ter uma ideia da complexidade da obra, lançada no fim do ano passado pelo Quadrinhos na Cia., selo especializado da Companhia das Letras, Mazzucchelli só liberou a versão brasileira após atestar a qualidade da tradução feita pela mesma editora para Jimmy Corrigan, de Chris Ware. O cuidado vai desde a fidelidade com a escala CMYK, padrão de cores utilizado para técnicas de impressão, até o respeito pelas fontes e balões criados de acordo com a personalidade de cada personagem.

Sim, Asterios Polyp é sobre como os pontos de vista e a compreensão de mundo podem condicionar o que chamamos de realidade. É o que ocorre com o personagem-título, arquiteto celebrado na academia, mas que nunca teve um projeto edificado. Vaidoso de sua racionalidade cartesiana, ele tem suas convicções abaladas após profunda decepção amorosa. Tímida e com uma visão de mundo orgânica, ela é o completo oposto de Asterios, expansivo e calculista.

Outro aspecto catalizador está no narrador, Ignazio, irmão gêmeo de Asterios, que morreu antes do parto. É nele que o arquiteto projeta seus sonhos não-realizados, como o de se tornar um arquiteto comercialmente bem-sucedido, capaz de colocar projetos na prática. O encontramos na noite de seu 50º aniversário, quando um raio destrói o que lhe resta, um apartamento com uma coleção de registros de sua própria vida por câmeras, como busca de seu irmão fantasma.

Perdido, Asterios deixa todas as certezas para trás. Linhas e cores de Mazzucchelli acompanham a mudança. Sem ser pomposa ou pedante, poucas vezes uma história em quadrinhos expandiu fronteiras e chegou tão alto na arte de contar uma história.

As imagens dizem tudo

Moebius é publicado no Brasil pela editora Nemo. Imagem: EDITORA NEMO/DIVULGAÇÃO
A editora mineira Nemo vem fazendo um belo serviço ao devolver os quadrinhos de Moebius ao mercado brasileiro de quadrinhos. O projeto começou em maio, com a publicação de Arzach, até então inédito no país. Agora chega às lojas Absoluten Calfeutrail & outras histórias. Nos dois livros, algumas HQs já haviam sido publicadas isoladarmente por outras editoras, nos anos 1980 e 1990. Uma delas, o essencial Garagem hermética, está prevista os próximos meses.

Um dos artistas mais cultuados do quadrinho europeu, Jean Giraud assumiu o pseudônimo Moebius em 1963, quando publicou uma série de tiras para a revista Hara Kiri. Ficou conhecido em 1974, quando se tornou um dos fundadores da Métal Hurlant. Já famoso, nos anos 1980, fez uma parceria com Stan Lee, ao desenhar uma graphic novel protagonizada pelo Surfista Prateado. No cinema, trabalhou na arte de Alien (1979), Tron (1982) e O quinto elemento (1997).

Publicadas originalmente nos anos 1970, as histórias de Absoluten Calfeutrail trazem um Moebius experimental, que transgride as regras da narrativa visual dos quadrinhos. São fantasias nada escapistas, que reúnem humanos e alienígenas em mundos alternativos, de formas delirantes. Como boa distopia, a crítica social emerge de situações improváveis, quase sempre certeira, como na erótica Pau doido que, disfarçada de ficção científica, aborda a repressão sexual do trabalhador comum. O texto é econômico ou simplesmente não existe. Na arte fantástica de Moebius, palavras raramente ajudam. As imagens já dizem tudo. (André Dib)
Publicado no Diario de Pernambuco em 3/01/12.

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