![]() |
| Imagem: WHOAMI-WHOAREYOU.BLOGSPOT/REPRODUÇÃO DA INTERNET |
Paulo Carvalho
O pensamento e o itinerário da filósofa política alemã Hannah Arendt é destado em obra do professor brasileiro Eduardo Jardim
O recém lançado Hannah Arendt - Pensadora da crise e de um novo início (Civilização Brasileira, 160 páginas, R$ 29,90), do professor de Filosofia da PUC-Rio, Eduardo Jardim, oferece uma interessante introdução a obras fundamentais do pensamento de Arendt, abordando seu itinerário intelectual (e pessoal) em três seções. A primeira delas volta-se às pesquisas dos anos 1940, sobre a origens do totalitarismo, em que Arendt propõe uma leitura diferente da corrente em sua época. Para a autora do já citado Origens do totalitarismo, os regimes de Hitler e Stalin não eram formas radicais de autoritarismos ou de ditaduras, mas significaram a ruptura com formas políticas tradicionais e a expressão máxima da falência da autoridade política em curso na modernidade.
Nas seções seguintes, Jardim ocupa-se da teoria política e da reflexão sobre a vida do espírito, que vincula as atividades de pensar, querer e julgar. “Ao apresentar a visão de Hannah Arendt da política, segui sua sugestão de começar pelo questionamento do preconceito atual contra tudo que é de natureza pública e plural”, sugere Jardim. A teoria da ação de Arendt, exposta em A condição humana (1958), influenciaria pensadores tão distintos como Jürgen Habermas e Giorgio Agamben, tomando a ação como uma atividade que não se confunde com nenhuma outra (e politicamente antípoda da “produção” fabril). A ação supõe a natureza plural do agir, argumentaria Arendt.
Por fim, a leitura de Jardim volta-se a temas presentes em A vida do espírito e Lições sobra a filosofia política de Kant, publicados após a morte da filósofa. Trata-se de uma reflexão (originada no julgamento de Eichmann, em Jerusalém) sobre a incapacidade de pensar e julgar, e sobre o problema do mal.
A pertinente obra de Jardim confirma a certeza que o século desta pensadora foi um século de irreflexão e que sua obra escova a contrapelo as repetições de “verdades” vazias, triviais, assim como a racionalidade dos homens-burocratas com pouca capacidade de pensar sobre o que, afinal, estavam fazendo neste “mundo”.
Entrevista >> Eduardo Jardim
Para responder pontualmente sua pergunta: a avaliação da importância das ideologias no nos regimes totalitários variou ao longo da obra de Hannah Arendt. Em Origens do totalitarismo, ela afirmou que uma espécie de “filosofia da história” desempenhou um papel importante na doutrinação dos cidadãos. Isto teria acontecido tanto na União Soviética, com uma determinada interpretação do materialismo histórico, quanto no nazismo e seu evolucionismo racista.
Anos mais tarde, a partir do momento do julgamento de Eichmann, em Jerusalém, Hannah Arendt observou que os criminosos nazistas, em geral, não eram ideologicamente motivados. Eles agiam mais por obediência, como bons funcionários, sem nunca discutir as ordens que recebiam. Esta foi a razão de Hannah Arendt falar em “banalidade do mal”.
Segundo a leitura de Arendt, a solidão é uma noção fundamental para compreender o totalitarismo. Como o pensamento político de hoje trabalha a noção de solidão?
A solidão é uma experiência de todo homem. Na velhice, na doença e em situações de desamparo, cada um de nós pode experimentar a solidão. A solidão não significa estar a sós. Pode-se estar no meio da multidão e viver em solidão. A solidão tem muito mais a ver com perder a companhia até de si mesmo. A discussão do tema da solidão surgiu para Hannah Arendt em sua indagação sobre qual teria sido a experiência humana explorada politicamente pelos movimentos totalitários. Sua tese é de que a solidão foi essa experiência. Apenas os regimes totalitários exploraram politicamente a solidão. Em Origens do totalitarismo, Hannah Arendt afirmou que muitos traços totalitários continuam presentes nas sociedades contemporâneas. Isto não significa que elas sejam totalitárias. Não seria impossível um retorno do totalitarismo, mas isso exigiria um investimento político nesses fatores que favorecem sua eclosão, como a solidão.
Vivemos um momento de falência da autoridade política?
A falência da autoridade política é um aspecto de uma crise ampla que atravessa a Era Moderna e marca seu fim. Trata-se de uma crise da tradição, da religião e da autoridade política. Esta crise significa a perda da estabilidade do mundo. Já não temos confiança nas crenças tradicionais e tampouco obedecemos aos antigos padrões de comportamento. Esta ausência de sentido caracterizou o modo de ser das sociedades de massa, surgidas no século 20, que foram mobilizadas pelos movimentos totalitários. Na contemporaneidade, sociedades reguladas por princípios estáveis foram substituídas por novas, que funcionam muito mais como sistemas que se autopreservam. A crise da autoridade é vista de dois modos por Hannah Arendt. Por um lado, ela conformou o ambiente político em que surgiram os totalitarismos. Por outro lado, já que não estamos mais presos aos padrões tradicionais, podemos nos sentir livres para agir com mais espontaneidade. Hannah Arendt apostou nesta última possibilidade.
O que é o “mal absoluto” ou a “banalidade do mal”?
Mal absoluto ou mal radical é um conceito presente na filosofia de Kant, utilizado na primeira fase da obra de Hannah Arendt para dar conta do que aconteceu no totalitarismo. Banalidade do mal foi o assunto de Hannah Arendt em Eichmann em Jerusalém, quando ela mostrou que os crimes cometidos pelos nazistas não tinham uma motivação profunda, mas apenas banal. Em uma carta ao amigo Gehrardt Scholem, Hannah Arendt afirmou: “Atualmente, minha opinião é de que o mal nunca é ‘radical’, que ele é apenas extremo e que não possui nem profundidade nem dimensão demoníaca... Apenas o bem tem profundidade e pode ser radical.”
Arendt, que opunha os conceitos de poder e violência, tem uma noção de poder muito distinta da de Foucault. As duas reflexões, contudo, são complementares, de acordo com a sugestão de Agamben (para o italiano, Arendt não teria entrevisto a força do biopoder e suas relações com o estado democrático, enquanto Foucault teria passado ao largo do totalitarismo alemão). Enxerga essa complementaridade entre as leituras de Foucault e de Arendt?
![]() |
| Imagem: GLAUCIA VILLAS BOAS/CAFEHISTORIA.NING.COM |
“Poder é invenção do novo”
Arendt afirma que “aquilo que o sistema totalitário precisa para guiar a conduta de seus súditos é um preparo para que cada um se ajuste igualmente bem ao papel de carrasco e de vítima”. Esse preparo foi feito pelas ideologias. Pergunto: Traços dessa nova noção de lei (que naturaliza os processos históricos) introduzida pelos regimes totalitários ainda marcam as democracias nacionais contemporâneas? De que forma?
Arendt afirma que “aquilo que o sistema totalitário precisa para guiar a conduta de seus súditos é um preparo para que cada um se ajuste igualmente bem ao papel de carrasco e de vítima”. Esse preparo foi feito pelas ideologias. Pergunto: Traços dessa nova noção de lei (que naturaliza os processos históricos) introduzida pelos regimes totalitários ainda marcam as democracias nacionais contemporâneas? De que forma?
A atualidade do pensamento
de Hannah Arendt não está tanto no conteúdo dos assuntos que tratou,
historicamente datados, mas muito mais no seu modo de pensar. “Pensar
sem corrimão” – esse era o lema da filósofa. Isto significa: indagar a
respeito do significado de tudo, sem depender de noções aceitas sem
discussão. “Ir às coisas mesmas, sem muita teoria!” – foi o que ensinou
Hannah Arendt. Esta ideia continua “atual”.
Para responder pontualmente sua pergunta: a avaliação da importância das ideologias no nos regimes totalitários variou ao longo da obra de Hannah Arendt. Em Origens do totalitarismo, ela afirmou que uma espécie de “filosofia da história” desempenhou um papel importante na doutrinação dos cidadãos. Isto teria acontecido tanto na União Soviética, com uma determinada interpretação do materialismo histórico, quanto no nazismo e seu evolucionismo racista.
Anos mais tarde, a partir do momento do julgamento de Eichmann, em Jerusalém, Hannah Arendt observou que os criminosos nazistas, em geral, não eram ideologicamente motivados. Eles agiam mais por obediência, como bons funcionários, sem nunca discutir as ordens que recebiam. Esta foi a razão de Hannah Arendt falar em “banalidade do mal”.
Segundo a leitura de Arendt, a solidão é uma noção fundamental para compreender o totalitarismo. Como o pensamento político de hoje trabalha a noção de solidão?
A solidão é uma experiência de todo homem. Na velhice, na doença e em situações de desamparo, cada um de nós pode experimentar a solidão. A solidão não significa estar a sós. Pode-se estar no meio da multidão e viver em solidão. A solidão tem muito mais a ver com perder a companhia até de si mesmo. A discussão do tema da solidão surgiu para Hannah Arendt em sua indagação sobre qual teria sido a experiência humana explorada politicamente pelos movimentos totalitários. Sua tese é de que a solidão foi essa experiência. Apenas os regimes totalitários exploraram politicamente a solidão. Em Origens do totalitarismo, Hannah Arendt afirmou que muitos traços totalitários continuam presentes nas sociedades contemporâneas. Isto não significa que elas sejam totalitárias. Não seria impossível um retorno do totalitarismo, mas isso exigiria um investimento político nesses fatores que favorecem sua eclosão, como a solidão.
Vivemos um momento de falência da autoridade política?
A falência da autoridade política é um aspecto de uma crise ampla que atravessa a Era Moderna e marca seu fim. Trata-se de uma crise da tradição, da religião e da autoridade política. Esta crise significa a perda da estabilidade do mundo. Já não temos confiança nas crenças tradicionais e tampouco obedecemos aos antigos padrões de comportamento. Esta ausência de sentido caracterizou o modo de ser das sociedades de massa, surgidas no século 20, que foram mobilizadas pelos movimentos totalitários. Na contemporaneidade, sociedades reguladas por princípios estáveis foram substituídas por novas, que funcionam muito mais como sistemas que se autopreservam. A crise da autoridade é vista de dois modos por Hannah Arendt. Por um lado, ela conformou o ambiente político em que surgiram os totalitarismos. Por outro lado, já que não estamos mais presos aos padrões tradicionais, podemos nos sentir livres para agir com mais espontaneidade. Hannah Arendt apostou nesta última possibilidade.
O que é o “mal absoluto” ou a “banalidade do mal”?
Mal absoluto ou mal radical é um conceito presente na filosofia de Kant, utilizado na primeira fase da obra de Hannah Arendt para dar conta do que aconteceu no totalitarismo. Banalidade do mal foi o assunto de Hannah Arendt em Eichmann em Jerusalém, quando ela mostrou que os crimes cometidos pelos nazistas não tinham uma motivação profunda, mas apenas banal. Em uma carta ao amigo Gehrardt Scholem, Hannah Arendt afirmou: “Atualmente, minha opinião é de que o mal nunca é ‘radical’, que ele é apenas extremo e que não possui nem profundidade nem dimensão demoníaca... Apenas o bem tem profundidade e pode ser radical.”
Arendt, que opunha os conceitos de poder e violência, tem uma noção de poder muito distinta da de Foucault. As duas reflexões, contudo, são complementares, de acordo com a sugestão de Agamben (para o italiano, Arendt não teria entrevisto a força do biopoder e suas relações com o estado democrático, enquanto Foucault teria passado ao largo do totalitarismo alemão). Enxerga essa complementaridade entre as leituras de Foucault e de Arendt?
A proximidade dos pensamentos de Hannah
Arendt e de Foucault tem mais a ver com o fato de que os dois autores
abordaram o tema da crise do mundo contemporâneo. Foucault viu essa
crise no fim do homem como o nexo das sociedades modernas. Com isto,
elas chegam atualmente ao seu fim. Este foi o assunto de As palavras e
as coisas. Neste contexto, opera-se o controle político da vida. Já
Hannah Arendt examinou a crise ampla da sociedade moderna e centrou sua
atenção no aparecimento dos totalitarismos.
Para
Hannah Arendt, realmente, poder e violência são incompatíveis. Onde
começa a violência, cessa o poder. Poder é espontaneidade, é
pluralidade, é invenção do novo, é a eloquência de múltiplas vozes. A
violência é muda, tem um caráter instrumental, depende de determinados
recursos. Na visão de Hannah Arendt, o desafio das revoluções modernas
foi de criar um novo estado de coisas sem apelar para a violência. Elas
frequentemente fracassaram neste aspecto.
Matéria publicada no Diario de Pernambuco em 05/02/12.


















